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Nossa paulicéia: retratos, retalhos...
11/12/2006
Índio Caçador
O 'Índio Caçador', de João Batista Ferri, por Adriano Vieland

Sua posição é a mesma desde 1939, aguarda a caça que nunca vem, mirando sua atenção para a Praça da República; fixo, inerte, com as veias do braço saltadas tamanho o esforço empreendido. É o sangue quente correndo num corpo de bronze.

Os arredores mudaram tanto desde sua chegada, conturbado processo que vem transferir uma nova leitura à seu olhar, de pleno bravio, à temeroso incerto.

Já lhe desrespeitaram tanto, lhe ignoraram tantas vezes, que tal atualização é plenamente válida, e por quê não, aceitável; sobre um pichado pedestal de granito, a obra de João Batista Ferri encontra-se no início da Avenida Vieira de Carvalho, próximo da Praça da República.


 

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23/11/2006
Do 37º andar
Do 37º andar do Edifício Itália, um panorama da cidade, por Adriano Vieland

Você tem um dia livre e não sabe o que fazer com ele? Espero que por aqui você encontre algumas dicas de passeios pela Paulicéia. O retratado hoje, em especial, impressiona, principalmente porque dele pode-se descortinar toda a imensidão de nossa selva de pedra, além de algumas outras construções famosas - como o Copan, o Hilton e a Igreja da Consolação.

Suba até os limites do Edifício Itália, se não conseguir chegar ao terraço, fique em um dos andares inferiores - como o 37º - e das janelinhas do corredor simplesmente fotografe, sinta a vertigem, análise o sombrio silêncio. Gaste seu tempo se surpreendendo.


 

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30/10/2006
Copan
Sob seu sinuoso traço, o inconfundível Copan, por Adriano Vieland

Avenida Ipiranga, 200. O mais belo dentre os edifícios modernos de São Paulo fica nesse endereço - "nosso Copan", grande tesouro da paulicéia, protegido pelo patrimônio histórico, guarda o sinuoso traço projetado em 1951 por Oscar Niemeyer.

Com seus 35 pavimentos e 1160 apartamentos, inagurado em 1957, foi construído em alvenaria de tijolos e estrutura de concreto; seu histórico remonta ao início dos anos 50, quando a Companhia Panamericana de Hotéis e Turismo idealizou um complexo composto de dois prédios - no primeiro funcionaria um hotel de luxo, com teatro e cinema, e no segundo, um conjunto habitacional e centro comercial.

Durante as obras, com um outro grupo assumindo o empreendimento, o projeto original foi alterado, e o hotel, desconsiderado; no seu lugar foi construído um edifício de 17 andares, este projetado por Carlos Lemos, compondo o conjunto.

O Copan de Niemeyer transpira uma leveza, que de longe lembra uma bandeira tremulando; ele é único, gigantesco: é o "nosso Copan".


 

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05/10/2006
Galeria do Rock
Um dos vãos existentes entre os andares da galeria, visto do último andar, por Adriano Vieland

O Shopping Center Grandes Galerias, localizado entre a Avenida São João, 439, junto ao Largo do Paissandu, e a Rua 24 de Maio, 62, é um paraíso, um abrigo, refúgio, ponto de encontro. A "Galeria" é um show! Bom, pelo menos esse é o sentimento dos amantes do bom e velho rock'n roll (e me incluo nessa lista).

O prédio comercial foi fundado em 1963 e teve o projeto arquitetônico de Alfredo Mathias, que buscou inspiração nas linhas de Oscar Niemeyer (nota-se muito bem isso nas formas onduladas de sua fachada e em cada vão disposto entre os andares do prédio).

Em sua origem, a Galeria contava com estabelecimentos de diversos segmentos, de salões de beleza à assistências técnicas, porém, a partir dos anos 70, com a instalação da loja de discos Baratos Afins, foram se multiplicando as lojas especializadas em música, a ponto de praticamente 200 de seus 450 estabelecimentos serem desse segmento.

Na primeira versão do Panorama São Paulo, no dia 15 de abril de 2003, escrevi uma crônica sobre minha primeira visita à Galeria do Rock, e como viciei em ir lá; abaixo segue a reprodução dessa crônica.

"Era um sábado, novembro de noventa e cinco. O dia, eu não sei. Eu vestia uma camiseta dos Sex Pistols, branca, a estampa com o rosto de Sid Vicious na frente e o logotipo clássico junto à capa de Never Mind The Bullocks, nas costas. Fomos, eu e meu pai, comprar componentes eletrônicos na Santa Efigênia.

Na volta, chegando ao largo da Santa, entramos à direita, na Antônio de Godói, até o Largo do Paissandu (que deveria ser do Paiçandu, mas esse desrespeito à Gramática, no momento, não vem ao caso nem altera a história). Contornamos a Igreja de Nossa Senhora do Rosário dos Homens Pretos de São Paulo, chegando à São João.

Enquanto o semáforo dava passagem aos automóveis e impedia a nossa, eu ficava observando o caos: letreiros, placas, faixas, pessoas, pombas, ônibus, fumaça, barulho. Sinal vermelho, "corre moleque, corre", e pronto: chegamos ao Shopping Center Grandes Galerias que, à primeira vista, além de não se parecer com o que estamos acostumados a chamar de shopping center, é pra lá de esquisitão.

Da entrada, na São João, duas rampas: uma descendente e a outra ao contrário. A primeira, conduzindo ao sub-solo: lojas especializadas em hip-hop, rap, black, afro, samba, alguma música eletrônica, botequins, cabeleireiros e afins. Não descemos, afinal, eu era o rock. Subimos a outra, acesso ao térreo: lojas de roupas e calçados, chaveiros, mais botecos, duas escadas rolantes (bem... , uma realmente rolante, subindo, e outra estanque, parada, nem subindo, nem descendo, morta) e a outra entrada das galerias, pela rua 24 de Maio.

Haveria uma certa simetria das lojas com relação às duas entradas, como se houvesse um espelho, onde tudo o que houvesse de um lado, haveria do outro. Atrapalhando a perfeição, havia o mezanino com a sex shop, voltado apenas para a São João.

Subindo ao primeiro andar, eu me encontrei perdido num paraíso: nunca vira tantos discos, CDs, pôsteres, cabeludos, cabeludas; nem sentira a combinação do aroma de sanduíche de pernil e com o odor de tinta para silk-screen (especialidades do local).

Daí em diante, subia andares... descia andares... ia por escadas rolantes que rolavam... escalava aquelas rolantes que não rolavam... me enrolava em escadas enroladas que não eram rolantes... e caminhava sobre o chão quadriculado, envolvido em cheiro de pernil e grades, lojas, Raul Seixas, arrulho de pombinhas, odor de silk-screen, carecas, John Lennon, cabeludos, churrasquinho grego com groselha grátis, e o barulhinho do motor agudo da máquina de tatuagem, ligando-desligando o tempo inteiro, vertiginosamente... viajando naquela série de enormes vãos - anéis que cortam o chão da galeria em vários andares -, eu me debruçava e olhava três, quatro andares lá pra baixo, me apoiando na grade alaranjada e molenga.

Boa parte de uma manhã na trilha de prazeres torturantes, sem um trocado no bolso sequer que desse pra eu comprar um broche...

E foi assim que eu viciei em ir à Galeria."


 

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